Obra impressionante, sátira mordaz da história política brasileira de 1910 até o golpe de 1964. Sucesso editorial absoluto na década de 1970 e responsável por celeuma entre os críticos pelo ataque a políticos e autores como Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto. Você nunca esquecerá Piranha da Fonseca Albuquerque, um dos personagens mais emblemáticos da literatura brasileira.
POR QUE LER O GRANDE LÍDER
Por Gabriel Kwak
Jornalista e escritor
É impressionante a atualidade desse roman à clef do bravo Fernando Jorge que, quando lançado, desbancou da lista de best sellers autores festejados como Gabriel Garcia Márquez, Jorge Amado e a emproada Lygia Fagundes Telles. O protagonista dessa impagável sátira de FJ é o inescrupuloso político Piranha da Fonseca Albuquerque, que alcança até mesmo as culminâncias do governo do Estado do Paraná e da presidência da República. Piranha é a antologia dos defeitos dos nossos homens públicos. Qualquer semelhança...
Posso apostar que muito da matéria-prima desse romance diabólico do nosso enciclopédico Fernando Jorge extraiu da sua convivência diária com alguns bufões e canastrões que conheceu quando era diretor da biblioteca da Assembléia Legislativa de São Paulo. Há quem jure, também, como o bem-informado Ney Gonçalves Dias, que Piranha serviu de inspiração para outro personagem popularíssimo de Dias Gomes, outrora muito querido no horário nobre de televisão: Odorico Paraguaçu (os mais desabridos chamariam isso de "plágio" ou "contrabando literário"...)
Ainda que em ficção, o filho do imenso lírico que foi Salomão Jorge não sonega ao leitor as cintilações de seu robusto saber e da sua paciência e aplicação de entomologista meticuloso na pesquisa de fatos relevantes da nossa história. O professor Fernando Jorge - aliás, um dos personagens do meu livro O Trevo e a Vassoura: os Destinos de Jânio Quadros e Adhemar de Barros - é um velho e fiel amante da precisão...
Ri às bandeiras despregadas com a passagem nonsense em que Piranha, governador, recebe em audiência os integrantes de uma escola de samba (esnobando os médicos do Hospital das Clínicas que o esperavam há mais de uma hora na antesala) e dá início a uma pândega no gabinete, com muito samba, batucada e "garrafas de pinga". Terminada a farra, nosso "edificante" personagem, bêbedo, vomita nos decretos e numa "mensagem que pretendia enviar à Assembléia Legislativa" sobre a sua mesa. Depois, no enterro de seu secretário da Cultura (que morreu por ter tomado uma "sopa de polvo com mexilhões"), após discursar em tributo ao morto, escorregou e caiu dentro da cova, ficando entalado na sepultura...
É frenético o ritmo da narrativa dessa irresistível rapsódia de Fernando Jorge, que promete aos seus leitores para breve o livro-libelo Diogo Mainardi: Profissional da Calúnia e um ensaio biográfico sobre o modernista Oswald de Andrade (a quem entrevistou um punhado de vezes...).
Da opulenta fortuna crítica que suscitou esse romance, já na quinta edição (salvo engano, esgotada), recolho o juízo do ficcionista Lúcio Cardoso, autor do clássico Salgueiro, sobre os ornatos da prosa de FJ: "Nenhuma outra prosa de escritor brasileiro contemporâneo me deu uma tal impressão de virilidade e força. A linguagem de Fernando Jorge freqüentes vezes tem relevos esculturais." O livro também ganhou, nos anos 70, uma adaptação, com inteiro agrado, para o teatro.
O Grande Líder é diversão garantida, muito mais do que qualquer página dessaborida do sem-graça Luís Fernando Veríssimo...
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