Escritor e Jornalista

Fernando Jorge

blogger-logo-small Facebook circle blue large Mail black large

você é o visitante:

O Aleijadinho

Sua vida, sua obra, sua época, seu gênio

Exemplares da biografia com o autografo do escritor: Entre em contato no email

Contato

Cinco passos para o barroco

"Aleijadinho e seu Tempo - Fé, Engenho e Arte", exposição em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil em São Paulo, reúne 200 peças para contar a histórica do barroco mineiro e seu principal artista

 

RICARDO BALLARINE/ ESPECIAL PARA O TEMPO

"Eu vos arguo, indumeus e gentios. Anuncio-vos e vos prevejo pranto e destruição." Quem entra no Centro Cultural Banco do Brasil, no centro antigo de São Paulo, depara-se com essa inscrição em latim, numa estátua imponente, apontando para o alto como a prevenir. Papel de profeta, no caso, de Abdias, "servo do Senhor", obra de Aleijadinho, o maior artista brasileiro dos séculos 17 e 18 e tema de exposição em cartaz no CCBB até 14 de outubro.

"Aleijadinho e seu Tempo - Fé, Engenho e Arte" passou por Rio de Janeiro e Brasília antes de chegar a São Paulo, sua última parada. Na capital paulista, a mostra reúne 200 peças, algumas não apresentadas anteriormente, para contar a história do barroco mineiro e de seu principal artista.

Antônio Francisco de Lisboa nasceu em 1730 (algumas biografias datam 1738), em Vila Rica (atual Ouro Preto), filho do arquiteto português Manuel Francisco de Lisboa e de uma escrava. Foi escultor, entalhador e arquiteto. É o autor de obras representativas do Barroco, como a igreja de São Francisco de Assis de Ouro Preto e do conjunto de 12 profetas e seis capelas dos Passos da Paixão do Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas. Seu trabalho está espalhado por várias cidades que fizeram parte do Ciclo do Ouro em Minas Gerais, de meados do século 18 até início dos oitocentos, como Mariana e Sabará.

A historiadora e consultora do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) Myriam Andrade Ribeiro de Andrade classifica Aleijadinho como a principal expressão artística do barroco mineiro. "É o maior gênio do período colonial. Ele foi reconhecido na época, mas essa afirmação só ganhou força no século 19 e a partir do Modernismo, quando Aleijadinho se tornou símbolo da nacionalidade", diz Myriam, autora de "Rococó Religioso no Brasil" (Cosac&Naify, 552 págs, R$ 88) e do catálogo "O Aleijadinho e sua Oficina" (Capivara, 334 págs, esgotado), este co-assinado por Olindo Rodrigues Santos Filho e Antonio Fernando Batista dos Santos.

A exposição é dividida em cinco pavimentos. O curador Fabio Magalhães sugere que a visita comece pelo terceiro andar e desça até o subsolo. A reportagem seguiu o conselho e subiu as escadas do CCBB para começar a viagem histórica. Abaixo, como uma pequena procissão, uma descrição dos cinco passos.

 

PASSO 1

No terceiro andar, a sala Mestres do Barroco de Minas Gerais apresenta obras de artistas contemporâneos de Aleijadinho, Mestre de Piranga, de quem não se sabe o nome, Francisco Vieira Servas, Francisco Xavier de Brito e Mestre Athaíde, o principal pintor do barroco mineiro. Peças religiosas compõem a quase totalidade do acervo. Os anjos tocheiros, de Servas, e as imagens de São João Batista, de Brito, e Santo Agostinho, de Mestre de Piranga, merecem um olhar mais pausado.

 

PASSO 2

O segundo andar é dedicado inteiramente a Aleijadinho. Entalhes, relicários e imaginária, emprestados de acervos sacros das cidades históricas de Minas Gerais e de coleções particulares, formam um amplo painel para compreensão do trabalho do artesão. Com forte apelo religioso, os itens esclarecem um pouco da época em que foram criados. Entre as obras expostas, o Espírito Santo, o Busto Relicário de Santo Atanásio e o Senhor dos Passos, peças da Arquidiocese de Mariana, o Cristo da Ressurreição (atribuído ao artista) e o Trono Episcopal, do Museu de Arte Sacra de Mariana.

Como complemento, uma saleta exibe o filme "O Aleijadinho" (1978), dirigido por Joaquim Pedro de Andrade ("Macunaíma") com roteiro de Lúcio Costa.

 

PASSO 3

Uma série de fotos do francês Marcel Gatherot (1910-1996), intitulada "Devoção", retrata a fé de romeiros em Congonhas e Ouro Preto no primeiro andar. As imagens, feitas na década de 1950, capturam momentos de entrega e adoração. A exposição também selecionou uma coleção de fotos do brasileiro Marc Ferrez (1843-1923), em Congonhas.

Para completar o conceito de devoção, uma projeção de 81 imagens de grande escala mostra cenas dos Passos da Paixão, do Santuário de Congonhas.

Considerada uma das construções mais importantes do Barroco, a igreja de São Francisco de Assis de Ouro Preto é representada por uma maquete inédita feita com base em fontes catalogadas pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Aleijadinho concebeu o projeto arquitetônico, inovador para a época ao prever formas arredondadas, com duas torres na frente. A igreja começou a ser construída em 1776 e só ficou totalmente pronta em 1890. Toda a ornamentação interna também foi obra do artesão, cujo trabalho é descrito dessa forma pelo historiador francês Germain Bazin, um dos principais estudiosos do barroco mineiro: "A plástica desse conjunto, onde tudo parece oriundo das mãos do artista, é amplamente tratada de maneira monumental".

 

PASSO 4

No térreo, depois do impacto do profeta Abdias, um tapete de serragem colorida com o Espírito Santo remete aos desenhos feitos nas datas religiosas nas cidades históricas. Um grupo de artistas mineiros viajou para São Paulo para realizar a obra especialmente para a exposição.

O Santuário de Congonhas se faz presente em reprodução fotográfica e nas miniaturas dos 12 profetas, com 31 cm de altura. Aleijadinho começou os trabalhos em Congonhas em 1796 e só foi terminar em 1805 - o santuário ficou totalmente pronto em 1875. Os profetas Ezequiel, Isaías e Joel, que, como Abdias, são réplicas em tamanho natural, foram emprestadas pelo Museu de Arte Sacra de São Paulo.

Da paróquia de Santa Ifigênia, de Ouro Preto, veio o Cristo Morto, de Mestre de Piranga, obra em madeira que impressiona pela plasticidade e vai além, por estar exposta deitada em uma caixa de vidro.

 

PASSO 5

No subsolo, está representado o Ciclo do Ouro, contado por mapas e cartas cartográficas do século 18, como os originais cedidos da Brasiliana de José Mindlin, moedas e lingotes de época.

Um conjunto de oratórios do século 18, da coleção de Angela Gutierrez pertencente ao Museu do Oratório, em Ouro Preto, retoma o tom religioso da sala. Ao lado, exvotos de madeira, da coleção de Márcia de Moura Castro, autora de "Ex-Votos Mineiros - As Tábuas Votivas no Ciclo do Ouro" (ed. Expressão e Cultura, 1994), completam a devoção popular.

Para o jornalista e escritor Fernando Jorge, autor da biografia "O Aleijadinho" (Martins Fontes, 393 págs, R$ 61,80), a obra do artesão "impressiona não só pela beleza, mas também pela qualidade". Segundo o pesquisador, Aleijadinho teve influência de seu pai e dos artistas Xavier de Brito e João Gomes Batista. Para compor sua obra religiosa, recebeu inspiração estrangeira, como a obra do escultor francês Pierre Puget. "Os dois atlantes do coro da igreja de Nossa Senhora do Carmo de Sabará possuem semelhanças com os do pórtico da Câmara Municipal de Toulon, na França", diz Jorge, vencedor do Prêmio Jabuti de 1961 com a biografia de Aleijadinho, que está na sétima edição.

Várias obras possuem formas asiáticas, notadamente alguns profetas do conjunto de Congonhas. "Daniel, Ezequiel e Jonas têm expressões orientais. Amós, que seria uma representação de Aleijadinho, parece um mongol", diz Jorge, para elencar as características do trabalho de Aleijadinho. "Olhos amendoados, musculatura ressaltada, unhas quadradas e maçãs do rosto salientes."

Após os 40 anos, Aleijadinho começou a apresentar os sintomas da doença que o deformaria e legaria o apelido. A lepra anestésica (ou nervosa) deformou membros e provocou a perda dos dedos das mãos e dos pés. Ele conviveu com a enfermidade até 1814, quando morreu. Seu corpo está enterrado na Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias, na sua cidade natal.

Apesar do apelido algo pejorativo, Manoel Bandeira busca interpretações mais solidárias. "Entenda-se que o diminutivo de Aleijadinho é significativo da pura compaixão e meiguice brasileira. O homem a que ele se aplicou nada tinha de fraco nem pequeno. Era, em sua disformidade, formidável", escreve o poeta em "Guia de Ouro Preto".

 

AGENDA - "Aleijadinho e seu Tempo - Fé, Engenho e Arte", no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo (rua Álvares Penteado, 112, centro, (11) 3113-3651 e www.bb.com.br/cultura). Visitação, de terça a domingo, das 10h às 20h. Entrada gratuita. Até 14/10

 

 

Publicado em: 26/08/2007

4518727765_232x138.jpg

'Espírito Santo', uma das peças de Aleijadinho que fazem parte da exposição

Foto: CCBB/DIVULGAÇÃO

4515328657_145x207.jpg

Copyright  2013 Fernando Jorge. Todos os direitos reservados.

ESCRITOR FERNANDO JORGE

Com grande surpresa e alegria Fernando Jorge recebeu esta homenagem da prefeitura de Ouro Preto pelo reconhecimento de sua obra.